Evento de 50 anos da Microsoft é interrompido por protesto de funcionárias: “vocês têm sangue nas mãos”
Durante a comemoração dos 50 anos da Microsoft, realizada nesta quinta-feira (4), um protesto inesperado ganhou os holofotes: a funcionária Ibtihal Aboussad interrompeu a apresentação do CEO da divisão de IA da empresa, Mustafa Suleyman, para criticar o uso de tecnologias da Microsoft em ações militares de Israel.
Protesto ao vivo no palco: “Vocês têm sangue nas mãos”
Microsoft AI CEO Mustafa Suleyman was interrupted during a presentation by a protestor slamming Microsoft for AI tools used by military forces involved in the war in Gaza. https://t.co/Um7pP1rbDm pic.twitter.com/u6pfYMArxz
— Variety (@Variety) April 4, 2025
Aboussad, que trabalha há mais de três anos como engenheira de software na equipe de IA da Microsoft, se levantou durante a apresentação e, visivelmente abalada, gritou:
“Você é um mercador da guerra. Parem de usar IA para genocídio. A Microsoft tem sangue nas mãos. Como vocês têm coragem de celebrar enquanto crianças estão sendo mortas?”
O protesto foi transmitido ao vivo para milhares de pessoas e rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais. Logo após ser retirada do local, Aboussad enviou um e-mail interno para listas com milhares de funcionários explicando o motivo da manifestação.
Denúncia sobre envolvimento da IA da Microsoft em operações militares
No e-mail, Aboussad afirma que ficou sabendo recentemente que os sistemas de IA nos quais trabalhou estavam sendo usados em ações de vigilância e combate em Gaza. Segundo ela, tecnologias da empresa estariam sendo aplicadas para transcrição de chamadas, identificação de alvos e operação de sistemas militares israelenses.
Ela também relatou que funcionários árabes, palestinos e muçulmanos da Microsoft vêm sendo silenciados nos últimos meses, inclusive com casos de demissão após tentativas pacíficas de protesto.
“Eu não entrei na Microsoft para escrever código que ajudaria a matar civis. Isso nunca foi informado. E agora não vejo outra escolha moral a não ser falar”, disse Aboussad.
Contratos e denúncias reforçam acusações
As alegações da funcionária não vieram do nada. Em fevereiro, uma investigação da Associated Press revelou que softwares da Microsoft e da OpenAI estariam sendo utilizados por Israel em operações militares, especialmente após o ataque do Hamas em outubro de 2023.
Entre os dados citados:
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Um contrato de US$ 133 milhões entre Microsoft e o Ministério da Defesa de Israel.
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Aumento de quase 200 vezes no uso de IA pelo exército israelense.
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Armazenamento de mais de 13,6 petabytes de dados nos servidores da Microsoft.
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Uso do Azure para transcrever chamadas e cruzar dados com sistemas de ataque.
Além disso, segundo a AP, a IA fornecida por Microsoft e OpenAI estaria sendo usada em operações que resultaram na morte de civis, incluindo crianças.
Protestos dentro e fora do evento
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A manifestação de Aboussad não foi a única. Mais tarde, outra funcionária interrompeu o momento em que Satya Nadella, Steve Ballmer e Bill Gates estavam no palco. Gritando “Vocês são hipócritas”, ela também citou o uso da tecnologia da Microsoft no conflito e pediu que a empresa corte os laços com o governo de Israel.
Do lado de fora, manifestantes do grupo “No Azure for Apartheid” também protestavam. A campanha pede o fim dos contratos da Microsoft com o governo e forças armadas israelenses.
Microsoft responde de forma protocolar
Durante a interrupção, Mustafa Suleyman manteve a calma e respondeu com um breve “eu ouço seu protesto, obrigado”. Bill Gates, ao ouvir os gritos da segunda manifestante, apenas sorriu e retomou sua fala normalmente.
Até o momento, a Microsoft não se pronunciou oficialmente sobre o episódio ou sobre as acusações relacionadas ao uso de IA em conflitos armados.
Apelo final: “Não escreva código que mata”
Aboussad finalizou sua mensagem interna com um chamado à ação. Ela incentiva outros funcionários a se juntarem ao movimento, assinarem a petição contra o uso do Azure em ações militares e pressionarem a liderança da empresa a revisar seus contratos.
“O silêncio é cumplicidade. Precisamos falar. Precisamos agir. Não escreva código que mata.”
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